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"Relógio! Deus sinistro, hediondo, indiferente,
Que nos aponta o dedo em riste e diz: ‘Recorda!
A Dor vibrante que a alma em pânico te acorda
Como num alvo há de encravar-se brevemente;
...
Recorda: o Tempo é sempre um jogador atento
Que ganha, sem furtar, cada jogada! É a lei.
O dia vai, a noite vem; recordar-te-ei!
Esgota-se a clepsidra; o abismo está sedento."
(C. Baudelaire traduzido por I.Junqueira)
*******
As revoluções burguesas têm seu débito para com o relógio e esta figura do tempo ligada a ele: a linha sem começo nem fim apontando para a frente, para o futuro, para o novo. A própria idéia de revolução depende desta imagem. Paradoxalmente, o relógio - com seu tempo linear todo amarrado no que vem antes e no que vem depois - também foi modelo para um outro tipo de imagem: a de um tempo mecânico, mecanicista, determinista. O futuro dado pelo passado! Sem brechas, sem invenção! Felizmente, a roda dentada quebrou os dentes e o trem da
história saiu dos trilhos. Na atualidade, voltamos a navegar num mar de incertezas! Amém!
O passado não é um, assim como as histórias que se contam são várias. Do passado fazem parte cacos e fragmentos dispersos, as esperanças não cumpridas, o que poderia ter sido. Estilhaços recolhidos que, como bombas, podem estourar o continuum do tempo e abrir portas entre o antes, o agora e o depois. A idéia de uma história aberta combina com a imagem de uma palavra aberta. Aberta a interpretações. Como a palavra divina, não é transparente, não pode ser esgotada.
*******
"E toma, para que a lembrança
desta felicidade seja eterna,
recebe como herança,
a coroa que tens aqui!
Atira-a para o alto, mais longe,
ao assalto da escada celeste,
prende-a às estrelas!"
(F.W.NIETZSCHE)
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Nasci em março de 1964, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Adoro ser carioca! Trabalho com com comunicação e cultura: TV, cultura política, novas tecnologias etc.. Escrevo, pesquiso, leciono. Curto artes plásticas, visuais, digitais. Desenho, faço experiências digitais. Gosto de navegar e publicar na internet.
"Após o cansaço da busca,
aprendi o encontro.
Após afrontar vento frontal,
navego com todos os ventos."
(Nietzsche, A Gaia Ciência)
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:: Quarta-feira, Agosto 01, 2007 ::
O céu imenso pesa plúmbeo
Despenca em gotas
Cristais gélidos
Arranham
Acendem a pele
Despertam as víceras
Andamos
Horizonte – fina faixa esmagada
O cinza revolto
Desaba
Em pingos, gotas, silêncio úmido
Não é choro
Talvez, suor
De quem muito correu
E, agora, aspira
Pulmões alargados – olhar expandido
O ar molhado
Quase peixe
Navega
Velas abertas
E a promessa de tempestade
:: ISABEL GUIMARÃES 8/1/2007 05:29:08 PM [+] ::
...
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:: Sábado, Setembro 30, 2006 ::
NÓS
Não me fizeste mal algum
que eu não tenha feito a mim mesma
Quem te acusou, quem te acusa
não o faz por amor a mim
Mas, pelo mal que lhe abrasa as entranhas
Nos teus olhos
vi os meus
e mais
Bebi no espelho d'alma
nossos corpos em ato
- tempo suspenso
perdura -
sôfrega do desejo
e daquela fúria santa
Paixão de claustro, convento
Paixão de pasto
(paradoxo?)
Repasto de feras
nos devoramos
...
Se és remédio
não sei
És a droga que me consome
e que, em sonhos, some e some
Acordo exausta
da sina infausta
de te buscar
VAGO
Impávida imerge
no mal imensurável
ávida, bebe a vida
ébria do sangue
que corre em tuas veias
e, vertido, encharca
seu vestido de gala
gala, regala
no charco emborca
abarca, emporca...
emporcalha, encalha
em calhaus
segue canibal
cega sede
cede ao chamado silencioso
da noite, foice
foi-se, cilada
silente orgia
saliente
urge, ruge
ruge-ruge
a seda farfalha
falha, fala
farfalla
sibila o vento
sílabas em tormento
por entre monumentos da razão
faustosa memória
escória
escora, esboroa
falta, esvai
escorre qual chuva
escoa
chora - à-toa?
infiltra, filtra
por secretas passagens
secreta
passa, empoça
mácula insidiosa
assinala o inominável
sedição
seduz, captura
voraz, devora
sega, aduba
acorda
a corda
encharcada em vermelho
encarnada corta
amofina o vago
afago
rasgo
trago
traz o amargo
:: ISABEL GUIMARÃES 9/30/2006 01:57:18 PM [+] ::
...
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:: Quarta-feira, Setembro 13, 2006 ::
CITAÇÕES MESTIÇAS
"Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências."
Mia Couto
VOZES ANOITECIDAS
"As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. Respiramos a luz, cobiçamos o céu e quando nos metemos na terra é para apodrecer. A seiva do solo não nos sobe pelos pés em direcção à cabeça, os pés só nos servem para andar. Para nós, só as estradas contam. São elas que nos guiam - da pobreza à riqueza ou a outra pobreza, da servidão à liberdade ou à morte violenta. Elas fazem-nos promessas, levam-nos, empurram-nos e depois abandonam-nos. E então morremos, tal como nascemos, à beira de uma estrada que não escolhemos.
(...)
Ao contrário das árvores, as estradas não surgem da terra, ao acaso das sementes. Tal como nós, têm uma origem. Origem ilusória, já que uma estrada nunca tem um verdadeiro começo; antes da primeira curva, lá para trás, já havia outra curva e ainda outra. Origem inatingível, pois que a cada encruzilhada se juntam outras estradas, que vêm de outras origens. Se tivéssemos que contar todas estas estradas confluentes, daríamos cem vezes a volta à Terra."
Amin Maalouf
ORIGENS
"Viver é ser outro. Nem sentir é possível, se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida."
Fernando Pessoa como Bernardo soares
LIVRO DO DESASSOSSEGO
:: ISABEL GUIMARÃES 9/13/2006 09:26:33 AM [+] ::
...
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:: Quarta-feira, Agosto 09, 2006 ::
A FINA ESCÓRIA DO TEMPO
Fui de um tempo muito antigo
Repleto de futuro
Fui de um tempo sem história
Caminhei pelo deserto
Os passos apagados pelo vento
Fui de muitos tempos
(tecidos na incerteza
no medo
nas certezas absolutas
absurdas)
Atrás de mim
(em mim)
Séculos de vícios
Monumentos de preconceitos
Cidades sobre cidades sobre ruínas
Sou no tempo
Me estendo sobre os séculos
Me estendo?
Às vezes, pareço perfurar, empurrar
dobrar as horas
Às vezes, são elas que me corroem
(sou a fina escória do tempo)
:: ISABEL GUIMARÃES 8/9/2006 05:46:06 PM [+] ::
...
Comentários:
SÃO JOÃO
QUAL A COR DA TUA BANDEIRA?
MINHA BANDEIRA É VERMELHA
AZUL, AMARELA, FURTA-COR
MINHA BANDEIRA CORA
A RENDA DA SAIA EM FLOR
ALEGRIA, FANTASIA, GIRA
BANDEIRA DA MINHA COR
COR DE CAMALEÃO BANDEIRA
TODA COR, GIRA FLOR
DANÇA EM VOLTA DA FOGUEIRA
GIRA, GIRA, DESATINA
SEM EIRA NEM BEIRA
INFLAMA, INCINERA A SINA
FOGUEIRA VERMELHA AQUECE
NOITE INVERNO TROPICAL
GIRA FOGUEIRA ESQUECE
DOR INFERNO TROPICAL
QUAL A COR DA MINHA BANDEIRA?
MINHA BANDEIRA GIRA
É GIRA
MAIS BIRUTA QUE O VENTO
SEM EIRA NEM BEIRA
DESATINA
SEM REMORSO, SEM TORMENTO
GIRA FOGUEIRA GIRA
QUEIMA TRISTEZA
ACENDE ARCO-ÍRIS
ARCO-ÍRIS LÁGRIMA ESTALA
MADEIRA CHEIRA QUENTÃO
ARDE OLHOS E GARGANTA
ARDE CHAPÉU DE PALHA
ARDE IMAGINAÇÃO
GIRA GIRA
CAI A NOITE
CAI NO SONHO
CAI NO CHÃO
A COR DA MINHA BANDEIRA
QUEIMA NA TUA MÃO
:: ISABEL GUIMARÃES 8/9/2006 05:44:36 PM [+] ::
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:: Domingo, Julho 30, 2006 ::
DIA SANTO
A chuva e o frio são alento para meus sentidos e seus órgãos ressequidos. Cheguei à cidade com cheiro de fumaça no ar - mato queimando. Dia seguinte, acordei com cheiro de fumaça no vento seco invadindo a casa. Nada de maresia. Nariz, olhos e garganta ainda ardendo. Olho-me uva-passa no espelho do banheiro. Credo! Água! Muitos copos d'água. Que calor!
Mas, hoje, a chuva amanheceu o dia úmido. Cinza, quase branco, quase frio, friozinho. Úmida, a mata menos crocante, menos combustível, mais lama. Úmido, o ar já não arde meu nariz, já não me arde, uva-passa hidratando, inchando algum viço. Pela rua, admiro as poças, o chão brilhante. Vou - vestido de brim bleu-de-chine, capa chumbo, sandálias de plástico prateado. Não sinto calor, mesmo com as mangas compridas. As folhas das amendoeiras acumuladas em espesso tapete afogueado já podem apodrecer. Antes, palha, poeira, combustível, medo imaginado do fogo varrer a rua, carros, árvores. Agora, desvio do fogo dos cigarros que caminhantes matutinos acendem, já saudosos da fumaça de ontem, das queimadas urbanas e suburbanas. Como alguns que levam seus cães a passear, outros levam seus cigarros entre armados dedos amarelecidos, entre lábios cheirando a tabaco velho. Passeio dominical. O sarro entranhado nas roupas, nas faces, nos poros dilatados. Fujo dos passantes chaminés ambulantes e desses pensamentos, imagens. Que fumem em paz.
Rumo à banca onde aceitam cartão, arrolo meus itens: jornal, revista, livro, figurinhas. Observo que ainda consertam a rede elétrica que incinerou ontem. Um monte de trabalhadores terceirizados, fios assustadoramente expostos à flor da terra, católicos saindo da missa, crentes indo ao culto. Uma voz de mulher acaba de reclamar que alguém lhe chamou de pomba-gira, de Maria Padilha. Procuro a voz e vejo um rosto gasto, deveras gasto, largo, mole, sem brilho, atravessando a rua, passos pesados, turvos, arrastando uma companheira de atenção.
Na banca, passo os olhos pelas revistas da semana - denúncias, perplexidades, banalidades. Me detenho nos mangás, nos quadrinhos. Descubro Crepax no jornaleiro do bairro - viva! Penso na minha modesta coleção: nos eróticos, nos de aventura, nos noir, nos ciber-punks, nos clássicos. Preciso de verba. Valentina na prateleira. Eu diante da prateleira. Atrás de mim, um buliçoso grupo de trabalhadores eletricitários, eletricistas, elétricos, sei lá. Uma voz masculina eriçada rasga o burburinho, ganha a superfície do som e desfralda seu protesto irritado:
- Porra! A mulher me olhou! Ela me olhou assim!
Suspensa num silêncio ínfimo, a interrogação dos outros. Meus ouvidos se aprumam, se apuram.
- Eu vou lá e mato essa porra de olho azul! Ela acha que pode me olhar?
Se atropelando, os outros questionam engasgados se "ela" de fato o olhou, se o olhar queria dizer alguma coisa. Questionam a irritação do outro, a fúria verbal do "objeto" incomodado.
- Cara! Ela pensa o quê? Esses assassinos em série matam assim: essas porras ficam olhando e pronto. Eu vou lá e mato ela. E com aquele olho azul - a desgraçada!
Os outros riem nervosos, incrédulos, assustados. Não me arrisco a olhar, embora não tenha olhos azuis. Ouvi muito.
O jornaleiro já ensacou as compras. Pergunto o preço e entrego o cartão.
- Opa! Esse é chipado, moço!
Sinto que o grupo se dispersou. Passo sem me fixar em ninguém, passante, trabalhador terceirizado, crente, católico, fumante. Coloco o capuz para evitar os pingos esparsos. Desvio dos fios expostos. Atravesso a rua lavada pela chuva fina. E a outra. Releio o anúncio no amplo pano de vidro. E um adesivo com um grafismo vermelho - uma letra? Qual significado? Céu cinza esbranquiçado. Nas altas amendoeiras, as novas folhas já começam a brotar, verdes. Ultrapasso o pedinte. Dobro a esquina e sigo. Pedras molhadas. O vizinho leva o canarinho para passear.
:: ISABEL GUIMARÃES 7/30/2006 06:16:39 PM [+] ::
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Comentários:
:: Sexta-feira, Julho 14, 2006 ::
MOVIMENTO no MULTIPLY
:: ISABEL GUIMARÃES 7/14/2006 10:35:05 AM [+] ::
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Comentários:
BRASÍLIA . impressões da capital da república - no MULTIPLY
:: ISABEL GUIMARÃES 7/14/2006 10:28:57 AM [+] ::
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Comentários:
A DONA DO BORDEL
Você não conheceu a dona do bordel. Nem a filha dela, de bunda imensa, larga e achatada, fantasiada de índia. As penas eram de um azul real fulgurante. Quantas penas. E o cocar era arquitetônico. E tinha o filho, Chiquinho, que era a cara da irmã, só que magro e homem. Mas não me lembro de vê-lo com mulher alguma. A mãe, então, ainda não era a dona do bordel. Vendia jóias de gosto duvidoso, de qualidade duvidosa, de procedência para lá de incerta. Dizia que era ourives. Devia ser muito inventiva: nenhuma peça se repetia, nem se parecia com outra. Era um enigma de designer. Carregava metais pelos dedos, orelhas, pulsos e pescoços de toda a família. Até o tal Chiquinho, que, uma época, usava um cavanhaque ralo de gigolô filho-da-mãe, arrastava correntes, crucifixos e penduricalhos outros. Eles adoravam figas. Ostentavam-nas como aqueles calhambeques que exibem no pára-brisa traseiro o plástico que diz que a inveja é arma dos incompetentes ou que a inveja do leitor é a medida do sucesso do proprietário do carango. Compreende? Ela e a filha tinham barrigas bem grandes e moles e coxas vastíssimas, pesadas, com maremotos de celulite. Rabelaisianas. Muito impressionantes. E a moça usava uns shorts ínfimos e se debruçava na janela do primeiro andar vestindo baby-doll vermelho de nylon. Adoravam todo tipo de tratamento cosmético e novidades de cremes, massagens, fornos, bandagens, agulhas e qualquer suplício que prometesse em vão um modelo em que jamais caberiam. A futura dona do bordel, que, então, era menos velha do que deve ser agora, embora já fosse mais passada que uma banana-passa gigante ou, como disse alguém repetidas vezes, um maracujá-de-gaveta, tinha uma balouçante papada franzida e pelancas pendendo pelo corpo inteiro. E ambas, mãe e filha, apreciavam zanzar com os seios nus ou quase. Dentro e fora de casa. E gritavam da janela. E gritavam do meio da rua. E gritavam vozes esganiçadas. E como gritavam. E o tal Chiquinho cripto-cafetãozinho era o que menos gritava. Mas não lembro de vê-lo com mulher alguma, apesar da fama. Dona Lúcia, da cobertura que dava para o quintal da casa da vovó, fazia de conta que não entendia e criticava discreta, pois de puta profissional tinha medo mesmo, até porque aquela era a primeira que via ao vivo e a cores, diante de seu prepotente nariz de Cleópatra. Vovó resmungava coisas indecifráveis e maldizia a decadência dos veranistas:
- No tempo do Getúlio...
Dona Lúcia fingia que não sabia de coisa alguma, nem dava pistas do que suspeitava, mas dava um jeito de não deixar a enteada Angélica - que, entre a gente de casa, o mano chamava "a virgem sonsa da Tijuca" - se misturar com a putinha e a cafetina. Já a Alice, a filha do delegado, andava para cima e para baixo com a carnavalesca índia coxuda. A dona do bordel vendeu muitas jóias duvidosas para a mulher do delegado. E o delegado era brocha. Pelo menos era o que dona Brígida, sua dileta senhora, mãe de sua talentosa filha Alicinha, que quase cantou em um festival, espalhava aos quatro ventos:
- É um brocha! Um brocha! Pinto mole! Viado! Viado! Não me come há mais de doze anos!
Aliás, Alicinha tinha uns quinze, quinze anos. Dona Lúcia fingia que não acreditava na coisa e saía de perto simulando um desinteresse superlativo. Vovó se dizia surda. E dona Brígida, farta como um bolo de aniversário com glacê de gordura hidrogenada colorido com anilina rosa-choque, gastava com vanglória. Gastava os caraminguás extras do marido, supostamente extorquidos de uma incipiente bandidagem. Gastava a gorjeta do chefão da delegacia do bairro carioca de péssima reputação, que ele tinha assumido em plenos anos de chumbo. E ela se jactava de gastar a grana do doutor delegado fodão e brocha na manutenção dos luxos do atarracado amante caipira, que se vestia como estrela sertaneja de antanho. Ele tinha uns vinte e poucos anos e, nas férias, era exclusivo da coroa. Um luxo. Os ouros, falsos ou não, ela comprava, vez por outra, com a dona do bordel. As roupas do mancebo, comprava com a mulher morena-loura-oxigenada do engenheiro com enfisema. Esse já morreu. Há uns dez anos? Talvez. Talvez, mais. A viúva, naqueles tempos de casada, vendia em domicílio umas roupas compradas a rodo em São Paulo. Quanto tecido sintético mal-cheiroso. Tremenda cara-de-pau. Não raro, já tinha usado ou emprestado as peças às amigas mais chegadas. E nem se dava ao trabalho de lavá-las - as roupas, não as amigas. Uma das tais amigas, que dizia ser sua sócia no negócio e no apartamento de veraneio, parecia um transformista da velha Praça Mauá. Altíssima, maçãs do rosto saltadas como se fossem recheadas com silicone líquido, pele de réptil disfarçada com quilos de maquiagem, cabelos oxigenados bem alisados e presos com um apoteótico pente de espanhola bem no alto do cocuruto, mãos e pescoço enormes. E tinha pomo-de-adão. Dos grandes. Paradoxalmente, chamavam-na Bela. Esta tinha um rebento que diziam artista, roqueiro, baterista e guitarrista. Ostentava algum apelido de bicho - Falcão? Águia? Gavião? Urubu? - e não conseguia ser contratado para tocar nem em baile de debutante do lugarejo.
E a outra? A cada semana, a futura viúva caía de cama, de tanto tomar purgante para não engordar. Quando não era purgante, era dedo de unha postiça bem comprida enfiado na garganta quiçá profunda. Dona Lúcia cansou de ouvir o barulhão vindo do banheiro da vizinha de baixo. Um nojo. A mulher ficava verde oliva, olheiras arroxeadas. Depois, se empanturrava de suspiro, queijadinha, curau, pamonha, bolo de fubá, rapadura e canjica. Então, tudo de novo. Enquanto pagava caro purgando o pecado da gula, a diaba enfiava chá-mate com leite quente goela abaixo do filho mais velho, magrelo de olhos esbugalhados, que ela temia que acabasse como o pai. Pelo que dizem, o coisinha vingou e não teve o destino paterno. Parece que é saudável, arquiteto, pai e funcionário da prefeitura de Salvador. A bulímica dizia que chá-mate com leite quente fazia ganhar peso. Entre uma coisa e outra, ela paquerava o marido de dona Lúcia, que, tal qual a consorte, fingia que não era com ele. O engenheiro era outro que fazia vista-grossa. A sacoleira avant la lettre e o marido engenheiro tijucano também tinham um menino mais novo, bonito, de olhos de mata selvagem. Bonito, boçalóide e metido a machinho - bem diferente do irmão. Gostava da filha da vizinha, Leila, minha amiga. Mas o idiota não dava o braço a torcer e, um belo dia, descobriu que o bonde passou e ele perdeu a única oportunidade de pegá-lo em uma daquelas longas férias de verão. Mas eles eram crianças, éramos todos crianças. E a menina ipanemense cresceu rápido e nunca mais o enxergou, nem quis enxergá-lo, e mal se deu conta da existência dele. E, nos primórdios da adolescência, ela ria dele só sair de casa depois da novela de época das seis acabar. E ela achou uma pobreza só o dia em que ele a repreendeu por usar um vestido tomara-que-caia de flores amarelas de sutis transparências. Ela riu. Riu e nunca mais sonhou com um beijo dele. E bem que ela já tinha sonhado muito com isso. Quando tinha uns nove, dez anos. Ele era muito burro. Mais burro que o Julinho do Turco, que, pelo menos, beijava bem. Isso nós sabíamos muito bem. E como.
Eu, Leila e Tutu nos entreolhávamos e, seríssimas, dizíamos ao Julinho, campeão local das camisetas Hang Ten, se sonhando surfista carioca:
- Julinho, você é lindo...
Novamente, nos entreolhávamos e, sorrindo:
- ...de boca fechada.
E caíamos na gargalhada. E o tal Julinho - lindo de boca fechada - ficava sem saber o que fazer, um tanto acabrunhado, fazia que ria, fazia que desdenhava. E não sabia qual o jeito certo de lidar com aquelas estrangeiras. Mas não nos sentíamos exatamente estrangeiras. Porém, com o tempo, fomos nos sentindo ETs. Principalmente, em relação a nossos conterrâneos cariocas que, em jubilo, não cansavam de zombar da caipirice dos minhocas. Como se fossem superiores. Mas nós só fazíamos isso com o Julinho do Turco. O Julinho maçaneta.
Parece que foi em outra era. E foi. Foi no século passado.
E você nunca viu a dona do bordel. E nenhum deles. Você nunca os viu.
Dizem que eles estão lá. Um dia, vamos lá. Para eu mostrar a você.
Mas eu já nem sei onde fica o bordel. Ficava na beira do rio, onde, agora, dizem que há um resort de luxo. A zona tinha umas quatro meias-águas cercadas pelo matagal do brejo, na beira do traçado velho da estrada para os cafezais. As crianças catavam rãs e sapos por lá, ao som do Altemar Dutra das putas. À noite, ficava cheio de pirilampos. Uma vez, os órfãos do casarão amarelo arrumaram uma pistola do avô e chamaram toda a meninada para dar uns tiros por lá à noitinha. Foi um bando de gente. Depois de darem uns tecos para o alto, a arma velha travou com uma bala na agulha e o maluco do Tucano, primo da Leila, foi o único que teve coragem de transportar a arma até o Beto das Motos, irmão do Soiza, o cunhado mais novo do baixinho que tomava conta dos pontos de bicho do centro da cidadezinha. O Tucano andou bem uns dois quilômetros com a pistola enfiada na frente da calça, morrendo de medo de dar um tiro no pinto. Quer dizer, acho que gozou com o risco, pois bem que podia ter colocado a arma no bolso traseiro e não o fez. O Beto das Motos destravou a maldita e os órfãos correram para guardá-la antes que o velho desse conta do sumiço. E nenhuma mãe, avó, tia, madrasta ou madrinha jamais teve conhecimento do acontecido.
Soube que o Tucano teve mais de sete filhos, cada um com uma mulher diferente. Cara estranho.
Onde será que meteram o bordel?
Não consigo lembrar o nome da dona do bordel. Nem o da filha.
Mas lembro que o Soiza tirou as calças no meio da pracinha exibindo sua macheza para os amigos e, depois, correu peladão até à zona velha. A Leila me contou que o Tucano contou para ela que os garotos de lá, os minhocas, costumavam se mostrar uns para os outros com bastante freqüência. Demasiada. E os mais parrudinhos ou porradeiros costumavam forçar os mais fracos ou tímidos a se curvarem para eles. Entende? A ficarem de quatro para eles os penetrarem. Sodomia mesmo. Parece que o Soiza adorava a coisa. A Leila disse que o Tucano falou que, antes de irem para as putas ou para a sodomização, os guris passavam forçosamente por galinhas ou cabritas. Parece que o Soiza tinha status, pois tinha conseguido uma bezerrinha. Quando recordo desses causos, morro de rir dos urbanóides daqui que idealizam a vida interiorana, o idílio bucólico. Quanta inocência. O mano ria quando eu tentava confirmar as histórias com ele. Ele nunca andou com essa turma. A única vez foi quando namorou a Anelise, irmã do Filhinho, nossos vizinhos no Flamengo que tinham um sítio na saída da cidadezinha. O mano se juntou com o Filhinho para comprar um quilo de erva direto do fornecedor, que diziam que a trazia do Paraguai. Passaram todo o verão viajando. Vovó não parava de reclamar do "cheiro de macumba" que vinha do quarto do mano. Era de dar enjôo. Ela deu para achar que ele estava freqüentando algum terreiro, aliciado pelos subversivos da universidade. Vovó era bem criativa. Os subversivos comunistas dela descristianizaram o mano e o iniciaram no paganismo africano. Nunca imaginou que aquilo simplesmente fosse futum de maconha. O mano ria, dava uns beijinhos na vó e ficava tudo por isso mesmo. O mano era meu herói. Ele não dava trela para o Tucano. Muito menos para o Soiza. Aliás, este ficou puto quando descobriu que o mano e o Filhinho conseguiram comprar direto do traficante que distribuía a maconha na cidade. Era que o Beto das Motos ganhava um troco nas férias passando erva para os veranistas. Para além da questão comercial, o Soiza se sentiu desprestigiado, quase ofendido. Mas não deu em nada, que com o mano ninguém se metia. Como era muito reservado, criou-se uma mitologia em torno dele, uma verdadeira mística. E eu bem que ajudei que acreditassem que meu irmão era um cara muito perigoso. E deitei na fama dele. Foi meu primeiro sucesso na propaganda.
Muito tempo depois, revi o Soiza numa festa do padroeiro da cidade. Com esposa a tiracolo. Uma perua e tanto. Ele estava com quase trinta anos. Continuava bonito. O que é surpreendente, pois, por lá, os homens viravam monstros quando passavam dos vinte e quatro, vinte e cinco anos - muita cachaça e comida pesada, sabe? O mulherio embarangava ainda mais cedo. Casava e embarangava. Se não tivesse casado até os vinte e dois, ficava com fama de tia solteirona e, infeliz, acabava embarangando do mesmo jeito. A Helenice, irmã do Soiza, deu sorte. Era feiinha, cara de caroço de manga, cabelo ralo espigado, magricela, titia e, ainda assim, conseguiu casar com um dos órfãos do casarão amarelo e enricar. Ela estava com uns vinte e seis e ele, o príncipe encantado, com uns dezoito. E era bem bonitinho. Ele herdou o laticínio do avô paterno e metade dos cafezais e do gado do avô materno. Dizem que, quando se divorciaram, ela levou o laticínio e uma boa pensão por conta dos dois moleques que tiveram e sei lá mais porquê. Abriu uma butique de luxo no primeiro shopping center local. E juram que ficou bonita como atriz de cinema. Essa era muito amiga da filha da dona do bordel. Dizem que, agora, ela, a Helenice, anda toda emproada e finge que não conhece ninguém daquele tempo, muito menos, a filha da dona do bordel. Na última vez que estive por lá - faz mais de dez anos -, ela ainda estava com ele, o órfão mais novo. Nos encontramos na padaria do pai do Neco, um portuguesinho mimado e metido, que usava cinta para esconder a pança. Falou comigo toda animada, reportando o casório, os filhotes, as viagens a Miami. Mas quando o marido chegou e nos cumprimentamos trocando beijinhos nas bochechas, ela ficou roxa de ciúme. Agora, dizem que só assina "Helen" e os quatro sobrenomes do ex.
E, por falar em nome, queria que você visse a dona do bordel - inesquecível. Qual era o nome dela?
:: ISABEL GUIMARÃES 7/14/2006 10:21:32 AM [+] ::
...
Comentários:
:: Sexta-feira, Maio 26, 2006 ::
LETRAS
I
A noite no teto do meu sono
Letras cometas percorrem
A noite explodida partida
Letras estrelas brilham
E se apagam
Vagalumes
Vagos lumes vagueiam pedaços desconexos
Sílabas ao acaso
Casam palavras que não existem
Sons impossíveis
Nem são palavras
Pedaços de cometas letras
Meteoros chovem sobre meu planeta
Não há nexo
Nem reflexo
Só letras que despencam luminosas
Se incendeiam antes de tocarem o solo
Se evaporam
No sonho de um mundo de livro
Mundo de história
Narrativa d'um pensamento
de mil idéias
d'outro mundo
Letras chovendo estrelas úmidas
Chovem chovem
Um dia brotarão
Palavras ao vento
Palavras monumentos
Palavras ligeiras
Palavras pesadas
Cairão qual frutas maduras
Apodrecerão desfeitas
Letras entranhando no solo
Estranhando o colo da terra
Letras
Letras
Letras
Percorrem minh'atmosfera
Trespassam - flechas
Meu corpo ferem
Letras
II
Noutro tempo
O mesmo era outro
O livro era outro
Livre?
O livro me livra?
Noutro tempo
Agora
As letras podem chover
O peito pode verter
Leite letras
Que a boca faminta engole
Furo primário
Bebe o mundo
Noutro tempo
Noutro mundo
Antes d'eu pensar, logo, existir
Antes
Bem antes
As letras chovem na terra
Como agora
Bem antes
III
Noutra era
Colhia alfabeto
Colhia sinais
Vírgulas, pontos, interrogações
E frutos estranhos
Hieróglifos?
Intergalácticos?
Comia, vestia
Pendurava letras para secar
Letras passas
Antes muito antes
De te tirar do meu caldeirão
E iluminar o mundo
Borbulha
Borbulha
A sopa de letras macarrões
Carrões bólidos insólitos
Cortam o tempo espaço
Planetas
Letras
INTERREGNO
Meu corpo está todo marcado
Da tua devastação
Teu exército em fúria
Dominou minha planíce
Planura indômita
Planura de aço
Ácida
Reflete tua face em mim
IV
A tua língua francesa
Se plantou no céu da minha boca
Verme prolífero
Chove letras
Pinicam minha língua doída - doida
Florescem entre os dentes
Verdura selvagem
Se alastra
Devasta o vazio
Vasto pasto
Cavalgo o rei
:: ISABEL GUIMARÃES 5/26/2006 09:52:04 AM [+] ::
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:: Sexta-feira, Março 24, 2006 ::
CENA NO METRÔ
Dez horas de uma noite de outono quente no Rio de Janeiro. Em uma estação do metrô, na zona sul, pessoas adentram o vagão que vai em direção à zona norte. O vagão não está cheio, mas, conforme o público vai se acomodando, sobram apenas lugares isolados, impossibilitando que companheiros, amigos ou namorados que então chegam viajem sentados lado a lado. Pouco antes das portas se fecharem, duas moças entre dezoito e vinte e dois anos de idade presumíveis entram apressadas e risonhas, procuram lugar e se dirigem para um grande banco lateral no meio do carro, onde resta uma única vaga. A moça que aparenta ser mais velha é alta, mulata, corpulenta, socada, um tanto acima do peso ideal. Sua silhueta curvilínea e seu porte chamam atenção, apesar do cansaço geral dificultar que os passageiros fixem os olhos nela por muito tempo. Ela tem um rosto grande e oval encimado por um penteado de rabo de cavalo preso bem no alto da cabeça, com os cabelos bem esticados e puxados em direção a ele. Talvez, use gel. Veste camiseta regata rosa choque e jeans bem justos, ressaltando as longas pernas bem torneadas e os quadris largos. Carrega uma enorme mochila cáqui e preta. Sua companheira é uma loirinha bem magrela usando grandes óculos de gatinho com a parte superior da armação transparente colorida de vermelho. Seus cabelos são levemente cacheados e estão mal presos em um desnutrido rabinho. Ela veste uma camiseta amarela com uma estampa de flor e uma calça de brim cor de areia. Carrega uma pequena bolsa quase imperceptível.
Diante do lugar vago, a mulata altona assume um ar autoritário, que deixa entrever um tom farsesco, e ordena com firmeza que a magrinha se sente. Esta, inicialmente, vacila, mas acaba obedecendo a outra, que persiste no comando. Ambas riem muito e a alta joga sua enorme mochila no colo da outra. Elas riem e conversam uma conversa picada, mal ouvida pelos passageiros, seja por causa da exaustão geral, pela ânsia de chegar em casa, pelo tatibitate entrecortado por risinhos soluçantes. Por vezes, seus olhos se encontram: a mais velha fixa o olhar nos olhos da outra, que não consegue suportá-lo por muitos segundos e, sorrindo trêmula, baixa seus pequenos olhos velados pelos óculos. A moça de pé levanta a cabeça com arrogância, se deixa embalar pelo balanço do trem e começa, pouco a pouco, a serpentear o corpo volumoso. A dançarina sustenta a conversação de sonoridade infantil, enquanto seu corpo se move numa cadência ondulante. Súbito, se ouve de sua boca uma voz esganiçada afirmando que "aquele menino é tão idiota!".
Na parada seguinte, pessoas saem, pessoas entram no vagão e as moças resolvem trocar de lugar. Vão aos tropeços para o fim do carro e, mais uma vez, deparam-se com uma única vaga no comprido assento lateral. Mais uma vez, a altona ordena peremptória à magrinha que esta se sente. Mais uma vez, a loirinha obedece e ri, enquanto a outra joga a mochila em seu colo. Mais uma vez, o tatibitate pontuado por risinhos nervosos serve de fundo para os movimentos sinuosos da dançarina do metrô. Novamente, encontros e desencontros de um olhar firme com outro vacilante. Agora, a bailarina tempera o ondear compassado com imprecisos olhares lânguidos lançados a esmo. O carro balança. Ela encosta o corpanzil lasso na porta do fundo, aquela entre os vagões. O papaguear afetado, os olhares que elas trocam, os gestos de seus membros, tudo escorrega, se espedaça, vagueia ao léu.
O trem pára na minha estação de destino. Eu salto. As duas moças seguem viagem.

:: ISABEL GUIMARÃES 3/24/2006 10:38:08 AM [+] ::
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Minas se dobra em mim
Faz a volta apertada
Um vale profundo
Por onde um rio escuro escorre
Com vagas saudades do mar
VEJA CAMINHOS DE MINAS
:: ISABEL GUIMARÃES 3/24/2006 10:32:50 AM [+] ::
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:: Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006 ::
DESPERTAR URBANO
Brinco com o fogo
Na aveludada madrugada
Vermelhas, minhas mãos
Protegem do vento as chamas
A parafina escorre liquefeita
Derrete plástica
Gotas sobrepõem-se translúcidas
No papel onde escrevo
Transparentes vestígios
Não consigo conter o vento
Que as chamas apaga
Reacendo-as com um ínfimo fósforo
Vultos mornos, inconstantes
Tremeluzem em meus olhos
Dançam misteriosos
Em dramáticas tramas
Multiplicadas em incansáveis sombras
As plantas me seduzem, me envolvem
Capturam meu olhar sonolento
Instáveis, as chamas tentam escapar dos pavios
Almejam independência
Desejam queimar adiante, adiante, adiante
Sempre além
Chamas rebeldes focalizam meu olhar
Na madrugada que desvanece
Do veludo profundo
Em suave cetim
Escrevo à luz do fogo
Enquanto o vento insiste
Em me expulsar de seus domínios
Escrevo por teimosia
Admirando a parafina
Que se dobra e recurva dúctil
Sinto o vento em minhas costas
Em todo o meu corpo
Em minha visão - vejo-o
Escrevo admirando as formas dançantes
Que, pouco a pouco
Têm diluído o seu mistério
Pela luz da manhã
Na vizinhança, invisível
Um galo canta
Desafiando conceitos de urbano
Refazendo a cidade
Plástica parafina
Chama sedutora
Magnetizando meu olhar
A manhã se instala
Certa, clara
Meu corpo pede cama
Assopro, apago as velas
Coloco a tampa na caneta
Fecho o caderno
Vou
:: ISABEL GUIMARÃES 2/2/2006 02:34:06 PM [+] ::
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:: Segunda-feira, Dezembro 19, 2005 ::
PONTO DE VISTA
Quando corro
O mundo chacoalha
Quando pisco
O mundo rebrilha
Se cubro meus olhos
E os aperto com os dedos
Uma estranha noite cai
E estrelinhas fogem por minhas órbitas
Quando giro
O mundo cambaleia à minha volta
Tropeça, me derruba
E ainda reclama que caí sobre ele
Pura fita!
Acho...
:: ISABEL GUIMARÃES 12/19/2005 12:15:49 PM [+] ::
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:: Segunda-feira, Dezembro 12, 2005 ::
SOBRE SIMULACROS, ESPELHOS, MEMÓRIAS IMPERFEITAS...
Do rigor na ciência
Jorge Luis Borges
Tradução de Tradução de Flávio José Cardoso
Naquele Império, a Arte da Cartografia atingiu uma tal Perfeição que o Mapa duma só Província ocupava toda uma Cidade, e o Mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o Tamanho do Império e coincidia ponto por ponto com ele. Menos Apegadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse extenso Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste subsistem despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Em todo País não resta outra relíquia das Disciplinas Geográficas.
*
Recentemente, aconteceu algo que me fez pensar no esquecimento necessário para que haja alguma memória. É irônico: não me lembro o que provocou tal reflexão.
Há textos de Borges que assinalam essa ânsia de "duplicação", de "conservação através dos simulacros". É como se fôssemos compelidos a nos assegurar da certeza de nossa existência, garantir seu testemunho através de uma espécie de "clonagem". Vivemos uma estranha época em que o medo do esquecimento tem a contrapartida da proliferação de arquivos e mais arquivos, gigantescos, incontáveis, que, justamente por estas características, cheiram a inutilidade... ou quase. Padecemos dessa agonia e apostamos que, nalgum futuro, haverá quem resgate nossa passagem. Não sabemos o que guardar, tememos a escolha - operação mais que necessária - e guardamos "tudo"... E "tudo" é um "outro" mundo... de uma vastidão assustadora, monstruosa... Paralisante?
O corpo humano possui limites: limite de memória, limite da velocidade de processamento das memórias e pensamentos em geral etc.. Nosso engenho produziu próteses: de memória, de processamento... Ao contrário do que nosso maravilhamento com as novas e novíssimas tecnologias nos faz crer, as atuais próteses de alta tecnologia - micro-chips, computadores, mega-sistemas integrados em rede, entre outros que mal sei nomear - não são as primeiras às quais recorremos. O desenho nas paredes das cavernas, as marcas feitas em antigos objetos rituais, as tatuagens, a escrita, tudo isso configura um monumental esforço trans-histórico de gravar, conservar, manipular a memória, o tempo e as identidades dos grupos humanos e dos indivíduos.
Há outros tantos limites com os quais temos que lidar. O caráter fragmentário das sensações, impressões, experiências e, por conseguinte, do conhecimento configura um limite que permanentemente nos desestabiliza, nos coloca em cheque. A angústia que sobrevém a esse processo é um dos importantes fatores que nos estimularam à construção de religiões, de teorias etc.. Religiões e teorias são instrumentos, dispositivos de classes (no sentido lógico, filosófico, não social) diversas, que servem para coisas diversas e que, eventualmente, assumem funções semelhantes. Religiões e, eventualmente, formas reificadas de teorias funcionam como bóias no oceano de nossas inquietações. O triste é que ao se cristalizarem, ao se tornarem "fundamento"- ideologia -, ao se fecharem para a dúvida, elas pesam e afundam, ameaçando levar junto consigo aqueles que simplesmente passam à sua volta. Como um gigantesco navio a naufragar. Assim, acontecem pequenas e grandes tragédias.
Nós só atravessamos limites porque somos incompletos. A despeito de nossas certezas, só existimos em movimento. Somos, deixamos de ser, nos tornamos... estamos... e tudo novamente... A vida é um sistema aberto e instável.
Devemos nos cuidar: as certezas viciam... como o doce reflexo de Narciso no espelho d'água.
*
Epílogo
Jorge Luis Borges
Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos, de instrumentos, de astros, de cavalos, de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que este paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.
VEJA ÁLBUNS DE FOTOS NO MULTIPLY:
PELA RUA... DE OLHO...
MR.P FOTÓGRAFO
HAPPY HOUR
:: ISABEL GUIMARÃES 12/12/2005 04:53:40 PM [+] ::
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:: Quinta-feira, Dezembro 01, 2005 ::
AVIÃO
É bonito ver o avião
Fazer a curva
Sobre a entrada
Da Baía da Guanabara
Como um gesto de rendição
A tamanha formosura
Santos-Dumont
Sant'Alberto
Anjo de asas abertas
Resplandecentes
Resvalam o mar de meus sonhos
Acariciam minhas ilusões
Soprando futuros possíveis
E implausíveis
Asas lúbricas
Seduzem o mar
D'onde se erguem os sóis
E o avião
:: ISABEL GUIMARÃES 12/1/2005 02:57:19 PM [+] ::
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:: Domingo, Novembro 20, 2005 ::
A ILUSÃO DO VINHO
Pablo Ruiz Picasso nasceu em Málaga. E nem sei o que ele faz aqui.
Um trovão ameaça minha escrita.
Queria que algo aplacasse tanta angústia. Dá-se um jeito!
Pablo Ruiz Picasso nasceu em Málaga, em 1881. Marx morreu em 1883. Não se tem notícia de que tenham se conhecido pessoalmente. Málaga fica perto de Gibraltar. Quase África. Não me parece estranho que Picasso buscasse peças africanas. Não me parece estranho que Picasso apreciasse o geometrismo "primitivo" africano. Fácil dizer isto agora!
Picasso andaluz. Andaluz... Anda, luz! Anda...
Aquela era uma noite sem luz e nem sei se Picasso, lá, me veio à mente. Aquela era uma noite sem luz, sem estrelas, com um absurdo frio cortante fora de estação... frio cortante cortado pelo vinho tomado no terraço.
As plantas se emaranhavam no terraço e nem ouvíamos os morcegos guinchando e cortando o ar com suas membranosas asas escuras. E o vinho era bem vermelho e encorpado. Sabia a pedra e fruta. Reconheci uma certa angústia, um certo desespero em comum. Você também, pois, fosse diferente, não teria me procurado.
Somos desses miseráveis de quem todos esperam tanto. A começar por nós mesmos... implacáveis. Nossos sorrisos abertos, nossas potentes vozes, nosso descabelamento em muito se assemelham. Até gostamos daquele mesmo vinho. Aquele, com certeza, era um bom vinho da terra.
Fôssemos irmãos, não seríamos mais parecidos. E o raio da angústia nos consumindo.
Não sei bem o que nos diferencia além do óbvio ululante.
Talvez, nossos excessos tenham sinais trocados. Talvez, nossa educação sentimental se assemelhe... careça de algo em comum... ou não. Talvez, estejamos na fronteira e caiba a nós avançar por nossa conta e risco, como outros de nossos antepassados em comum ou incomuns o tenham feito ao modo deles. Não! Não há fórmula pronta, nem receita mágica. E a incerteza quanto ao nosso bom senso nos espreita e fustiga. Como terá sido com eles. Talvez, você tenha cedido algo que eu não cedi. E, talvez, vice-versa. O pior, caríssimo, é a incompreensão. Mas é o nosso jeito... ou nossos jeitos. E, talvez, a gente bem que aprecie alguma santa incompreensão! Provavelmente.
Só sei que, ao me recordar daquela atípica noite fria e iluminada por nossas angústias, algo me tranqüiliza. Algum tipo estranho de certeza... ou ilusão. Talvez, toda certeza consista numa ilusão contemporânea... uma ilusão passageira na qual acreditamos naquele exato momento.
Você discute a cena e algo lhe dilacera.
Você diz que o outro tempo, aquele da cena, lhe faz falta. E, simultaneamente, diz que o outro tempo, o da sua nostalgia, pode ser o seu tempo, o da sua contemporaneidade. Você tem nostalgia do agora que já se dissipou?
Pablo Ruiz Picasso nasceu na Andaluzia, em meio às uvas, às passas, ao vinho.
Pablo Ruiz Picasso decompôs o espaço no tempo. Pablo Ruiz Picasso desenhou o tempo no espaço plano. Pablo Ruiz Picasso conheceu Albert Einstein?
Do terraço, olhamos o mundo sombrio, esperando a luz voltar, já que a lua não daria a cara naquela noite, muito menos, as estrelas.
As crianças gritavam brincando com os fantasmas urbanos, enquanto eu recordava a fotografia naquele balneário de tantos vícios. Nunca nos parecemos tanto quanto naquela foto em que meu sorriso me remetia a milhares de milhas de distância. Fôssemos irmãos, aquele meu sorriso não pareceria tanto com o seu.
Os maiores absurdos ditos candidamente por você em um pretérito mais-que-perfeito do indicativo recendiam a uma estúpida honestidade, enquanto arranhavam os meus ouvidos e minha memória. Lhe respeito por aquilo, por tanto destemor e franqueza bruta.
Você discute a cena e algo lhe dilacera. Que raio! É dramaturgo... Que raio de dramaturgo!
Agora, você hesita e quer fórmulas... quer aprovação... Já teme sua franqueza... Maturidade? E antes, o que você queria? E o que desejava?
Despertando, me vi menina, sentada na primeira fila, ouvindo atenta o professor de óculos espelhados nos dizer de suas incontáveis incertezas e raríssimas certezas... Afirmou veemente, numa espécie de crítica a sei lá quem que o revoltara - talvez um vigilante "pai nosso que está no céu" -, que, àquela altura da vida dele... Ora! Quantos anos ele teria então? Aos doze anos, qualquer um com mais de vinte me parecia uma outra classe de gente... tudo uma coisa só... os adultos. Enfim, ele disse com uma tal firmeza que, àquela altura, ele já conseguira uma grande coisa na sua vida: saber o que não queria. Por alguns instantes, hesitei quanto à sinceridade dele... Seria mais uma de suas sarcásticas brincadeiras?
Você discute a cena e algo lhe dilacera.
Como a mim, lhe fascina a palavra que se entranha na matéria e promove mágica - palavra é matéria! Sobretudo, por causa disso, do coincidente fascínio, você me procurou naquela noite escura, sem lua, estrelas ou eletricidade. Porque você me leu nas entrelinhas. Porque você precisava contar aquela história, porque você precisa contar aquela história, porque você precisa desesperadamente de todas as histórias a serem contadas em um terraço frio e escuro, entre plantas que observam silenciosas enquanto tentam nos agarrar em suas desgrenhadas armadilhas, diante de uma bela garrafa de vinho que se esvazia como que por encanto.
Eu não posso te dar uma resposta. Só posso te oferecer incansáveis perguntas...
Os indícios do verão são muitos, além das noites mais curtas e das auroras que se antecipam ao nosso despertar... As formigas abundam... vorazes...
:: ISABEL GUIMARÃES 11/20/2005 10:29:43 AM [+] ::
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:: Sexta-feira, Novembro 18, 2005 ::
Alguns DETALHES meus no multiply:
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LÁ tem mais!
:: ISABEL GUIMARÃES 11/18/2005 05:34:09 PM [+] ::
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:: Quinta-feira, Novembro 10, 2005 ::
No armário de minha mãe, ignorando qualquer vaga noção de direito à intimidade, eu fuçava, vasculhava em busca de alguma revelação que me esclarecesse, que me iluminasse.
Encontrava em suas gavetas preciosas luvas esquecidas... de cetim cor de gelo, feitas para mãos delicadas, outras de intenso verde, em malha, em suave pelica rubra, beges abotoadas por pequenas pérolas, em couro negro como a noite... todas as quais eu ambicionava. No porta-jóias, repousando sobre um veludo escuro, colares e brincos de cristal, onde meus olhos mergulhavam úmidos de felicidade. Lingeries, rendas, camisolas diáfanas, transparências de toda sorte... velando e desvelando para mim todo um mundo de alumbramento. Maquiagem ricamente colorida, pós, sombras, rouges, batons... cintilâncias e cremosidades. Encontrava fotos, retratos, alguns meus... bilhetes, cartões de dia das mães, dos namorados, aniversário, desenhos, declarações. Medalhas, santinhos, fitas de seda, lembranças de batizados, primeiras-comunhões, casamentos, nascimentos e até noivados.
Em um espelho enorme, que ficava em uma das muitas portas, encontrava o meu reflexo... e, entre curiosa e encantada, me fantasiava de minha mãe, de mulher, de adulta, artista, bruxa, princesa, rainha e fada. Botava sapato alto, vestido de renda guipure, batom, sombra azul, perfume francês... e um longo colar de pedras verdes... e um par de brincos de gotas roxas... e uma pele branquinha e peluda enrolada no pescoço... Fazia pose, olhava de cima... botava a peruca cacheada sobre os finos cabelos desgrenhados e fazia que fazia cara de femme fatale... Era então que vestia as luvas compridas de couro preto que subiam pelos meus braços e fulminava com um único olhar um admirador imaginário no outro lado do espelho.
Então, de súbito, minha mãe adentrava e, lépida, eu saltava sobre a cama, fingindo que era só uma criança... e jurava que não tinha entortado os saltos, nem manchado as sombras... nem rasgado as rendas... E ela escondia mal o riso, fingindo que acreditava...
:: ISABEL GUIMARÃES 11/10/2005 03:59:11 PM [+] ::
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:: Terça-feira, Setembro 20, 2005 ::
No MULTIPLY:
DIGRESSÕES MÍTICO-AFETIVAS SOBRE UMA CIDADE MONUMENTO

:: ISABEL GUIMARÃES 9/20/2005 07:06:08 PM [+] ::
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